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A 21ª maior economia do mundo

Fonte: Valor Econômico (04 de novembro de 2020)


 
Washington, meados de 2002: o cubano-americano Otto Reich assume o posto de subsecretário de Estado para a América Latina. Em seu primeiro discurso diante de embaixadores da região, Reich tece loas ao “modelo” de desenvolvimento econômico do Chile e alfineta o Gigante do Atlântico Sul. “O Brasil deveria seguir o exemplo do Chile”, declarou, sem cerimônia, o diplomata, desapercebido por poucos segundos do tamanho da gafe que cometera.
 
Acomodado numa cadeira a pouco mais de três metros do púlpito, o então embaixador brasileiro na capital americana, Rubens Barbosa, levanta-se da cadeira num átimo e, também sem cerimônia, interrompe o discurso do subsecretário antes que fosse tarde demais: “Senhor Reich, me desculpe e também os chilenos presentes, mas a comparação do Brasil com o Chile é indevida. O PIB do Chile é menor que o de Ribeirão Preto, cidade do interior do Estado de São Paulo”, advertiu Barbosa, medindo franqueza com o interlocutor americano.
 

PIB paulista cresceu o dobro do nacional no ano passado

 
São Paulo é, sem dúvida, grande demais, quando comparado não só a Estados brasileiros, mas também à maioria das nações. No ranking das maiores economias, a paulista é a 21ª do mundo. Se São Paulo fosse um país independente, poderia reivindicar assento no G-20, o grupo das 20 maiores economias, afinal, seu PIB (US$ 603,4 bilhões) é maior que o da Argentina – US$ 449,7 bilhões), membro desse grupo (ver tabela acima)
 
O Estado de São Paulo responde por 32% do PIB brasileiro – a participação já foi maior. É a 3ª economia da América Latina e também o 3º maior mercado consumidor da região. “São Paulo é um país dentro de um país. Quase 46 milhões de pessoas (21,6% do total do país) vivem em São Paulo. Trata-se da 31ª maior população do mundo”, assinala o ex-ministro Henrique Meirelles, hoje secretário de Fazenda do Estado.
 
Meirelles enumera outros fatos que justificam a grandeza de São Paulo. O Estado é o maior produtor mundial de açúcar, etanol e suco de laranja. Das 20 melhores rodovias do país, 19 estão em São Paulo. O Estado tem o maior porto (de Santos) e o maior aeroporto (Guarulhos) da América do Sul. É sede de 60% das empresas do ranking Fortune 100 Latam. Quatro das dez melhores universidades latino-americanas estão em São Paulo.
 
Num quesito que faz a diferença numa economia mundial cada vez mais competitiva, onde a produtividade é crucial na disputa de mercados globais ou mesmo na defesa dos mercados domésticos, os paulistas têm uma vantagem incomparável: 70% da mão de obra qualificada do país trabalha no Estado.
 
São Paulo, menciona Henrique Meirelles, é sede de 80% dos eventos de negócios da América Latina, além de ser o maior centro de lazer e entretenimento da região.
 
Em 2019, segundo estimativa da Seade – os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) relacionados a esse aspecto ainda não foram divulgados -, o PIB paulista cresceu 2,5%, mais do que o dobro do ritmo do país (1,1%), com geração de 579 mil empregos.
 
Pelo IBC-Br, índice do Banco Central que procura estimar o comportamento do PIB, o crescimento de São Paulo foi ainda maior: 2,8%. Neste ano, depois de entrar em terreno negativo em decorrência dos efeitos econômicos da pandemia, o Estado começou a se recuperar em agosto.
 
Considerando fevereiro base 100, isto é, o mês anterior ao início da pandemia, São Paulo chegou a 101,5 em agosto e, em setembro, segundo o Seade, deve ter superado os 103. “Com isso, voltamos ao PIB de dezembro”, comemora o ex-ministro da Fazenda.
 
O que Henrique Meirelles realmente celebra é o fato de, na contramão do governo federal, São Paulo conseguir se diferenciar, perante os investidores, em relação a um quesito que, atualmente, é considerado crucial para que fundos estrangeiros invistam em qualquer lugar: o respeito ao meio ambiente.
 
“São Paulo opera em alinhamento total às normas internacionais de conservação e preservação. Aqui, em 2019, o desmatamento ilegal foi zero e ainda houve recomposição de florestas. Estamos estimulando o uso de fontes limpas de energia e limitando a geração de gases causadores do efeito-estufa”, assegura.
 
A comprovação disso, diz o secretário, foi a bem-sucedida licitação da rodovia de Pipa (Piracicaba-Panorama), realizada neste ano de pandemia. Com 1,3 mil quilômetros, a rodovia beneficiará 62 municípios, a um investimento de US$ 2,7 bilhões. Liderado pela gestora Pátria, o consórcio tem a participação do Blackstone, um dos maiores fundos de investimento do planeta.
 
“É a primeira rodovia carbono zero do país. Se não estivéssemos respeitando os compromissos na área ambiental, o investimento não teria saído”, observa o secretário da Fazenda.
 
Por Cristiano Romero – Jornalista desde 1990. Formado pela Universidade de Brasília (UnB), trabalha no Valor desde a sua fundação.