Pioneiras no porto: presença feminina cresce no maior terminal de exportação de grãos do Brasil
Fonte: Globo Rural (09 de janeiro de 2024)
Número de mulheres trabalhando no porto de Santos sobe 65% no intervalo de 10 anos até 2020
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Depois de oito anos trabalhando como operadora de empilhadeira, Mariana Pugliesi embarcou em um novo desafio: o terminal portuário de grãos da trading Archer Daniels Midland (ADM), em Santos (SP). Há quase dois anos na companhia, que é uma das maiores exportadoras de commodities do mundo, ela passou pelas funções de auxiliar e assistente de operações, até que, em setembro, tornou-se a primeira mulher a operar um equipamento no terminal.
“Eu já trabalhei em outra empresa operando máquina, então já tinha experiência na área operacional e com equipamentos”, conta Mariana, de 37 anos, em frente ao tracionador com que ela movimenta vagões ferroviários repletos de toneladas de soja e milho.
“As mulheres têm capacidade, só têm que se especializar, fazer cursos. Eu me especializei nas máquinas, mas existem outras áreas aqui dentro do porto em que elas podem ir. Vai de acordo com a característica que cada uma tem”, afirma.
Em 2017, Patrícia Ribeiro de Mello entrou na ADM como estagiária. Ela foi efetivada como assistente administrativa dois anos depois: passou para a área de planejamentos da companhia e, em 2022, foi promovida ao cargo de supervisora de programação e controle de produção no terminal do porto de Santos. A oferta de uma cadeira na supervisão aconteceu no momento em que ela estava gestante.
Passada a licença-maternidade, Patrícia entrou em uma fase com a qual todas as mães se identificam: amamentação, uma noite mal dormida, um dia em que o filho ficou doente, uma febre, a jornada dupla. E nenhum desses desafios foi – nem deve ser – impedimento para que a carreira profissional continue a avançar.
Hoje, além de responsável pelo controle de todas as cargas que chegam ao terminal da ADM nas vias rodoviária e ferroviária, ela também é uma das responsáveis pelo programa de inclusão e diversidade de gênero no local.
“Chegou um momento em que olhamos para dentro de casa, no porto, e vimos que existia a oportunidade de incluir mulheres. Começamos então com o projeto de inclusão e com as adaptações para recebê-las”, conta.
O projeto que Patrícia mencionou teve início em meados de 2020, com trabalhos de planejamento e de estrutura que seriam necessários para o aumento da ocupação feminina. Houve análise de ergonomia e construção do vestiário feminino, por exemplo. Outra mudança estrutural foi a construção de um lactário que, posteriormente, ela própria utilizou no período de amamentação.
Para complementar o processo de inclusão, a iniciativa incluiu também preparação psicológica, principalmente dos líderes, para que as funcionárias tivessem voz e pudessem também ser avaliadas por seus potenciais em planos de carreira. Outra medida foi a criação de uma roda de conversa somente para mulheres, para que elas pudessem trocar experiências sobre o trabalho.
Com as adaptações, a companhia foi ao mercado em 2022 para buscar novos talentos, já que, até então, a ADM Santos já contava com colaboradoras, mas ape- nas nas áreas administrativas. Em janeiro daquele ano (um mês antes de as mulheres entrarem na operação), a unidade contava com 28 colaboradoras. Depois, já com o programa ativo, o número total subiu para 62. “O grande desafio agora é mantê-las. É fazer com que cheguem mais longe, construir com elas uma carreira dentro do porto”, destaca a supervisora.
Em outubro, a ADM levou um grupo de 12 produtoras rurais para uma visita ao seu terminal de exportação de grãos em Santos para que elas conhecessem a rota que a carga faz desde a entrada no porto até o embarque no navio.
A GLOBO RURAL acompanhou a visita. “Acho que essa foi a primeira vez em que eu vi inclusão, de fato. Elas nos mostraram aqui o que realmente interessa, o que também mostrariam para um homem”, afirmou a agricultora Lizandra Zamboni durante a passagem pelo local. Proprietária de uma fazenda de 1,2 mil hectares de soja e milho em Mato Grosso do Sul, ela conta que está há 15 anos no setor agrícola e que sua percepção é como a de qualquer ou- tro produtor rural, sem distinção de gênero.
O número de mulheres trabalhando no porto de Santos, o maior da América Latina, aumentou cerca de 65% no intervalo de dez anos até 2020, de acordo com o estudo mais recente sobre o tema feito pelo Centro de Inteligência de Mercado da Strong Business School, conveniada à Fundação Getulio Vargas (FGV).
No período considerado na análise, a contingente de homens no porto aumentou 42,21%, de 4.930 para 7.021. Já o número de mulheres subiu 64,92%, passando de 764 para 1.260. Ainda de acordo com o estudo, a média salarial dos homens subiu 60,5% nesse intervalo, passando de R$ 3.484,84 para R$ 5.593,07, e a das mulheres cresceu 76,78%, passando de R$ 2.765,19 para R$ 4.888,43.
A renda média das mulheres cresceu mais que a dos homens, mas, como se vê, a remuneração das profissionais seguiu abaixo da do público masculino.