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Bolsa Oficial de Café completa 100 anos como uma joia da coroa de Santos

Fonte: A Tribuna (22 de agosto de 2022)

O centenário prédio da Bolsa de Café de Santos, marco histórico do Centro. Foto: Reprodução/A Tribuna

 

Santos, 7 de setembro de 1922. Uma chuva inclemente insistia em cair sobre os santistas naquele dia festivo, em que eram comemorados os 100 anos da Independência do Brasil. Apesar do inconveniente, a Cidade, tomada por milhares de pessoas, dava de ombros para as fastidiosas gotas d’água que, de certa forma, lavavam a alma paulista, em júbilo pelo centenário do nascimento da nação verde e amarela. Não havia sol. E isso não era um problema, já que o brilho nos olhos do povo santista reluzia o orgulho por celebrar os ideais de José Bonifácio de Andrada e Silva, que propiciaram o processo liberatório brasileiro.

 

O presidente do Estado de São Paulo, o advogado e intelectual Washington Luís Pereira de Sousa, presente desde a hora do almoço na Cidade, participa com afinco de alguns dos grandes atos do dia, como a inauguração da belíssima Praça Independência, onde fora erguido um majestoso monumento em glória aos irmãos Andradas (José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos). Terminado o primeiro compromisso, era hora de apresentar ao País um dos mais belos prédios públicos construídos no Estado de São Paulo: a Bolsa Oficial de Café, no coração da velha Cidade.

 

Santos já era referência no universo do principal produto de exportação brasileiro: o café, também chamado de “ouro verde” nacional. A partir do final do século 18, sua produção passou a promover gigantescas transformações na Província (Estado, a partir de 1889) de São Paulo. Na segunda metade do século seguinte, o grão conquistou o globo terrestre, catapultando a economia brasileira e, consequentemente, transformando de forma arrebatadora o cenário da terra bandeirante. O porto santista foi alçado à condição privilegiada de o Porto do Café e sua praça comercial ganhou status de Wall Street para a principal commodity do Hemisfério Sul do planeta.

 

Assim, já no começo do século 20, era latente a necessidade de fincar em Santos o organismo que ditaria as regras para o comércio da valiosa rubiácea no mundo: a Bolsa Oficial de Café. A instituição era altamente necessária para a centralização e sistematização dos negócios, promovendo o estabelecimento de normas reguladoras para as operações comerciais, a divulgação diária de preços e a situação do mercado. Em 1914, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovava a lei que determinava este controle do comércio cafeeiro no Estado, dando início à criação da Bolsa, que teve seu funcionamento autorizado em 28 de abril de 1917. No início, o organismo foi instalado num salão alugado na parte térrea do prédio situado na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua do Comércio.

 

Um palácio para o café 

Em 1919, o Governo do Estado resolveu dar o passo definitivo para a construção de um edifício sede para a Bolsa Oficial de Café. O lugar escolhido não poderia ter sido mais feliz, no tradicional Quatro Cantos, nas esquinas da Rua XV com a Frei Gaspar, coração econômico e político da cidade. A pedra fundamental foi lançada em 27 de abril de 1920, em um evento que contou com a presença do então presidente do Estado, Altino Arantes.

 

Três projetos foram apresentados, mas o vencedor foi o apresentado pela Companhia Construtora de Santos, firma pertencente ao engenheiro Roberto Cochrane Simonsen. A ideia era criar um monumento ao café, algo que representasse a essência e o apogeu do ciclo econômico que transformou o Brasil. Unindo recursos e dedicação, os idealizadores preocuparam-se com detalhes primorosos e materiais de alta qualidade: cúpulas de cobre, grandes esculturas, piso em mármore Carrara, vitrais, mosaicos de mármore, robustas colunatas de gratino e uma grande torre de relógio, com mais de 40 metros de altura.

 

Washington Luís, quando assumiu o controle do Estado, se empenhou bastante para que a inauguração fosse um sucesso. Mas as mudanças no projeto e aumento no custo atrasaram os trabalhos. A obra acabou sendo inaugurada em 7 de setembro de 1922, mesmo não estando totalmente concluída. Quando se cortou a fita naquela tarde chuvosa em Santos, a Bolsa só tinha a oferecer uma parte do edifício, ainda que a principal, como a fachada para Rua XV e o Salão do Pregão, com as magníficas obras produzidas por Benedicto Calixto. A Bolsa só ficou pronta pra valer em 1923.

 

Hoje em dia

A Bolsa Oficial de Café funcionou até 1986. Agregada à Secretaria da Fazenda do Estado, o prédio ficou sem um uso nobre até 1998, quando o local passou a abrigar o Museu dos Cafés do Brasil, condição ainda presente e que foi, de fato, um presente para a cidade santista, que respira o aroma de café como o mais puro dos oxigênios.

 

Os tesouros do Palácio do Café

 

Telas de Benedicto Calixto

Calixto deixou no prédio da Bolsa de Café algumas de suas mais belas heranças, senão o mais impressionante conjunto de pinturas à óleo já realizado pelo pintor. Situado no fundo da Sala de Pregões, o painel reúne três telas que revelam períodos distintos vividos por Santos. Do lado esquerdo, temos o Porto de Santos em 1822; no centro, a Fundação da Vila de Santos em 1545; e no lado direito, o Porto de Santos em 1922, contemporânea ao trabalho, já mostrando a própria Bolsa de Café inserida na urbe santista.

 

Vitral Visão de Anhanguera

Confeccionado pela mais importante empresa de vitrais do Brasil na época, a Casa Conrado, a obra intitulada A Epopeia dos Bandeirantes reúne desenhos de Benedito Calixto que representam três períodos do desenvolvimento brasileiro, nominados pelo artista como A Penetração e Conquista do Sertão pelos Bandeirantes, A Lavoura e Abundância e A Indústria e o Comércio.

 

Esculturas

Elas estão na entrada principal e no alto da torre do relógio, compondo o que havia de principal entre os ornamentos das fachadas. Todas foram produzidas pelo escultor italiano José Sartório. Na parte que dá de frente à Rua XV de Novembro, estão as figuras de Ceres (Deusa grega da agricultura e da fertilidade) e Mercúrio (Deus grego do comércio). Já no alto da torre estão alegorias que representam a navegação, a agricultura, a indústria e o comércio.