Como a pandemia mudou a vida dos CEOs
Fonte: Valor Econômico (17 de maio de 2021)

João Carlos Brega, da Whirlpool: almoço e jantar com as filhas adolescentes — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Equilibrar melhor trabalho e vida pessoal é algo que os executivos que estão no comando das maiores empresas do país não estão conseguindo fazer na pandemia. Neste segundo ano de home office e isolamento, eles estão cansados com longas jornadas de trabalho, preocupados com a saúde física e mental e repensando o que importa na vida pessoal. As incertezas em relação ao futuro dos negócios e do país têm tirado o sono dos dirigentes, assim como dúvidas sobre o futuro profissional.
Esses dados fazem parte de uma pesquisa realizada pela BTA, obtida pelo Valor, que ouviu 204 executivos, sendo 24% CEOs e vice-presidentes de grandes companhias instaladas no país, 33% deles com idades entre 46 e 55 anos e 40% de empresas no setor de serviços. Metade dos entrevistados afirma que entre suas maiores preocupações está a própria saúde física e mental e 33% estão incertos sobre seu futuro. “Para eles, a adaptação ao home office e as novas tecnologias foram mudanças com um impacto importante, além de estarem enfrentando a maior crise antropológica de suas vidas”, diz a consultora Betania Tanure.

Chieko Aoki, da Blue Tree Hotels: aprendendo a conviver com a mãe de 94 anos — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
A mudança na rotina com o distanciamento social e o home office, no entanto, trouxe também uma oportunidade única para 21% dos entrevistados, que puderam conviver mais com suas famílias. João Carlos Brega, 57 anos, CEO da Whirlpool, multinacional fabricante de eletrodomésticos, diz que o fato de não ter que viajar a trabalho por conta da pandemia o ajudou. “Antes, vivia mais em aeroportos e aviões do que em terra. Hoje, consigo almoçar e jantar com as minhas filhas.” Quando as viagens acabaram, ele confessa que estranhou ver a agenda mais vazia, mas isso não durou muito. Aos poucos, as reuniões virtuais se intensificaram.
“Passamos a trabalhar em um modelo de reunião ‘um a um’, por departamento”, explica Brega. O encontro com o CEO global que acontecia presencialmente três vezes ao ano virou mais frequente no virtual. Ele diz que foi acomodando a dinâmica em uma nova agenda, onde pode incluir até seu trabalho no conselho da AACD, que passou a se reunir de noite e virtualmente. As videoconferências, segundo ele, criaram situações inusitadas, como quando ao inaugurar uma nova plana na Argentina em 2020, pode conversar no Zoom com o presidente do país, Alberto Fernández. Alguns assuntos ele ainda prefere tratar pessoalmente e já se acostumou a fazer o teste para covid-19 toda vez que tem uma reunião na sede da companhia.
Na pesquisa, os respondentes acima de 56 anos, manifestaram maior preocupação com a saúde física, enquanto aqueles com menos de 45 anos, uma maior ênfase no cuidado com a saúde mental e o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. O diretor executivo de cultura e gente da Gol, Jean Carlo Nogueira, de 38 anos, foi um deles. Depois de alguns meses de pandemia, passou a ir à academia para se exercitar e lidar com a ansiedade, insônia e as preocupações do trabalho. “Me sentia como se estivesse atravessando um deserto, sem poder medir a temperatura ou a extensão da caminhada. Era como ter uma venda nos olhos. O fato de não conseguir enxergar o futuro aumenta o nosso medo”, diz.
Nogueira preferiu continuar indo ao escritório da empresa, mesmo com maior parte do administrativo atuando de casa. “O home office é desafiador e manter esse ritual me deixa energizado”, afirma. Além da rotina de exercícios, ele passou a cuidar da alimentação. A intensidade do trabalho aumentou desde 2020. “As reuniões virtuais são cansativas e às vezes não dá tempo nem de ir ao banheiro.” Como gestor de pessoas, diz que vem trabalhando esse tema para suavizar essa jornada a todos os funcionários.
Um dos aprendizados que Nogueira afirma que vai levar desse período de pandemia é olhar mais para o que realmente importa na vida, como ficar junto dos filhos pequenos, de 11 e 5 anos. Ele conta que um amigo executivo jovem foi parar no hospital com suspeita de AVC. “Por sorte ele teve apenas uma paralisia facial temporária, mas aquilo me fez pensar muito sobre o que estamos fazendo”, afirma. A instabilidade no setor de aviação não vai mudar, mas é preciso lidar com isso. “De 850 voos diários caímos para 50 em abril de 2020. Voltamos a ter 660 em dezembro e em janeiro deste ano caímos para 300. A gente brinca que a aviação é o primeiro setor a entrar em crise e será o último a sair”, diz. A empresa não demitiu e fechou um acordo com o sindicato para reduzir o salário dos funcionários em até 50% para garantir o emprego até dezembro deste ano. São 15 mil empregados no Brasil e na América do Sul.
O setor de hotelaria e turismo é outro que está entre os mais afetados pela pandemia. Chieko Aoki, 72 anos, CEO da rede Blue Tree Hotels, teve que lidar com o fechamento temporário de alguns dos 23 hotéis e viu a taxa de ocupação oscilar, de 60% a 30%, dependendo da localidade. “Tive que controlar custos, olhar cada centavo, cada detalhe e ver o que era realmente necessário”, conta. Além da instabilidade do setor, ela viveu um grande desafio pessoal. A mãe de 94 anos passou a morar com ela. “Foi uma mudança radical na minha rotina”, diz. Viúva e sem filhos, dedica boa parte de seu tempo à mãe. “Tive que cuidar da casa, aprendi a cozinhar comida japonesa tradicional e a valorizar muito o papel das mulheres nessa pandemia.”
Na pesquisa, praticamente todas as executivas relataram problemas na adaptação das questões familiares no home office. Embora tenha adotado horários mais rígidos para conciliar o trabalho com a nova rotina doméstica, Chieko diz que ganhou um tempo de qualidade com a mãe. “Entendi que é preciso cuidado para não se tornar teimoso (brinca) e que é preciso estar sempre em evolução. A compreensão da existência do outro, do idoso, é muito importante”, afirma. A CEO procura concentrar suas reuniões em dias específicos e nesse segundo ano de pandemia consegue abrir mais espaço na agenda para a leitura. No momento, está relendo “Visões de futuro”, do físico japonês Michio Kaku. “O passado já conhecemos, quero olhar para frente”, diz.
Augusto Lins, 57 anos, CEO da fintech Stone, diz que embora esse período esteja sendo difícil, ele quer sair da pandemia uma pessoa e um pai melhor. “Busquei ter uma postura positiva dentro e fora da empresa”, diz. Em casa, todos os dias tem se juntado aos três filhos universitários para fazer ginástica bem cedo. Depois, tomam o café da manhã juntos e cada um segue para o expediente. “Nos ‘breaks’ aproveitamos para conversar. A gente monitora a saúde mental de todos, um ajuda o outro.” Ele diz que se preocupa em como pode ajudar a sociedade a superar esse momento. “Só vamos estar bem quando todos estiverem.” Na pesquisa da BTA, 23% dos executivos disseram que esperam ver uma mudança na consciência coletiva em relação aos impactos da pandemia.
Na empresa, Lins diz que a linha de microcrédito disponibilizada para os clientes foi criada com o intuito de ajudar os pequenos e médios negócios a sobreviverem. Estando mais em casa desde o ano passado, ele passou a dedicar os fins de semanas aos estudos, o que acabou levando-o a escrever um livro, que saiu este ano (“5 segundos: o jeito Stone de servir o cliente”, editora Portfolio Penguin).
João Carlos Brega, da Whirlpool: almoço e jantar com as filhas adolescentes — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Para metade dos executivos da pesquisa, a continuidade da empresa é uma das maiores preocupações, assim como a adaptação à nova realidade (18%). Ao lado delas, está o futuro da política (27%), o controle da pandemia e da vacinação (16%) e a qualidade das relações sociais (13%).
Brega participou do movimento “Unidos pela Vacina” junto com Chieko Aoki e outros empresários. “Não dá para só ficar no lugar do passageiro de ônibus nessa crise”, diz. Para ele, a empresa tem que ser cidadã e a sociedade tem que se juntar. Brega diz que a pandemia vai deixar cicatrizes e lições. “Vamos sair dela vendo o mundo com outras lentes”, afirma Lins, da Stone.