Covid-19: atingimos o pico?
Fonte: Estadão (05 de abril de 2021)

Brasil poderia vacinar mais de um milhão de pessoas por dia, mas não há vacinas para isso – Foto: Igor do Vale / Estadão
De acordo com diferentes estudos feitos por matemáticos especialistas no assunto, devemos estar atingindo o pico da pandemia entre 5 e 10 de abril. Se estes cálculos estiverem corretos, é uma boa notícia. Não é possível dizer que é uma ótima notícia porque há uma grande probabilidade de ficarmos estáveis num patamar muito elevado, com a covid-19 seguindo em frente ainda por um bom tempo.
Enquanto a população não for maciçamente vacinada, não teremos chance de derrubar substancialmente o número de infectados e, consequentemente, o número de mortes. O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ao contrário de seu antecessor, está engajado em conseguir vacinas e a verdade é que o número de pessoas vacinadas diariamente está subindo.
O Brasil tem condições de vacinar mais de um milhão de pessoas por dia, o problema é que não temos vacinas para isso. Basta ver a quantidade de cidades que suspendem a vacinação porque não têm mais doses para serem aplicadas para não ficar nenhuma dúvida sobre a origem do problema.
Ainda é cedo para se saber a reação do presidente da República, se vai permitir que o ministro siga em frente ou se vai demiti-lo, como fez com os dois primeiros ocupantes da pasta. Em bom português, o que o ministro da Saúde está fazendo é desfazer e desdizer tudo o que foi dito e feito pelo Ministério da Saúde ao longo da gestão Pazuello. E isso é muito bom para o Brasil e para nossa população, mas não é tão bom para a imagem do presidente.
Seja como for, atingirmos o pico significa que a doença deve pelo menos estacionar e, num segundo momento, com a chegada em massa das vacinas, deve regredir e permitir que o País possa voltar a pensar em reorganizar a sociedade e a economia.
Atingir o pico também é importante para o sistema de saúde nacional. Quer dizer que não vai mais piorar. Tanto o SUS como o sistema privado estão extremamente pressionados, operando no limite de sua capacidade, quando não acima dela, com todos os inconvenientes dessa situação. O retrato mais dramático são as mortes ocorridas enquanto as pessoas aguardam um leito de UTI.
Mas não é só isto. Há muito mais, a começar pelo esgotamento físico e mental das equipes na linha de frente; pela falta de insumos essenciais para o atendimento das vítimas da covid-19; pela suspensão do atendimento das outras patologias que não foram milagrosamente embora, mas que não podem ser atendidas pela rede hospitalar, sobrecarregada pela pandemia do coronavírus.
Um leito de UTI custa por dia mais de R$ 2 mil para o SUS e perto de R$ 5 mil para os planos de saúde privados. Com mais ou menos dez mil pacientes em UTI no Estado de São Paulo, numa conta de 80% para o SUS e 20% para os planos privados, estamos falando de mais de R$ 26 milhões /dia, ou R$ 780 milhões por mês, ou R$ 9,4 bilhões por ano. Para dar uma ideia da dimensão do número, o orçamento do Ministério da Saúde para 2021 não chega a R$ 40 bilhões.
Com a certeza de que os números não irão crescer, que a tendência é diminuir e que isso pode ser apressado com a vacinação em massa, o brasileiro pode começar a respirar um pouco mais aliviado ao longo do segundo semestre. E o SUS e os planos de saúde privados, pela primeira vez em mais de um ano, terão tempo para recuperar o fôlego.
Por Antonio Penteado – Sócio de Penteado Mendonça e Char Advocacia e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras