Como começar no emprego com todo mundo remoto
Fonte: Valor Econômico (30 de março de 2020)

Samaha, CEO da Tenda Atacado, que contratou executivos que começaram a trabalhar remoto diz que “faltou o aperto de mão” — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
Há duas semanas, o CEO da Tenda Atacado Marcos Samaha contratou dois executivos. Como boa parte dos seus 6 mil funcionários está em home office devido a quarentena e os 45 gerentes e diretores estão trabalhando a distância, os novos contratados foram apresentados remotamente. “Foi a primeira reunião com toda a liderança 100% em videoconferência”, diz o CEO.
Samaha brinca que faltou o tradicional “aperto de mãos” durante as boas vindas, mas de forma geral, ele ficou satisfeito. “O vírus quebrou o paradigma do trabalho a distância”. É em vídeo que ele irá entrevistar e receber os próximos contratados. Com as vendas aquecidas no varejo on-line, a empresa contratou 40 profissionais temporários e abriu 120 vagas operacionais.
A Tenda Atacado não é a única que se adaptou para receber profissionais contratados antes e durante a crise do coronavírus. Na OLX, o tradicional café de boas vindas foi substituído por videoconferência. O encontro para integrar oito novos funcionários, realizado na semana passada, durou três horas e contou com integrantes do RH e da TI.
Na Syngenta, que mantém as contratações no Brasil, tanto nas áreas administrativas quanto operacionais, o ‘onboarding’ foi adaptado em meados de março, quando a proliferação do coronavírus se intensificou. A empresa precisou adotar plataformas de comunicação on-line para continuar ingressando e integrando contratações. Em abril, todo o processo de recrutamento e admissão será on-line.
Na área farmacêutica, a Pfizer implementou um sistema digital para assinatura de documentos e adaptou ferramentas já utilizadas em outras operações no mundo, como um manual de onboarding remoto.
Com o escritório brasileiro fechado e cerca de 80% dos 1,7 mil funcionários do país em home office, a empresa prepara-se para receber, nesta semana, os contratados em março.
“Os gestores estão recebendo uma cartilha para saber os equipamentos que precisam solicitar aos novos funcionários, como apresentar os benefícios, explicar os desafios e montar a agenda de stakeholders que eles precisarão conhecer”, diz Sheila Ceglio, diretora de RH da Pfizer Brasil.
No banco BS2, os funcionários estão recebendo o kit de boas-vindas e notebook em casa. O banco também agendou uma videochamada para receber, orientar e dizer como serão os treinamentos de integração. Além dos detalhes processuais, o mais importante no onboarding on-line, na avaliação do CEO da Randstad, Fábio Battaglia, é o funcionário saber com clareza “o que a empresa espera dele”.
Foi isso que fez Fernanda Buregio de Lima se sentir mais tranquila na admissão da multinacional Reckitt Benckiser. Egressa da Kimberly Clark, Fernanda tinha até comprado uma roupa para conhecer o novo trabalho e sua equipe de oito pessoas no dia 16 de março. Como o escritório foi fechado no dia 12, ela descobriu que precisaria conhecer tudo de modo on-line. “Eu nunca comecei remoto. Brinco que está sendo o case da minha vida”.
O RH enviou uma planilha de contatos de toda a diretoria e agendou um call para as boas vindas. Do seu lado, Fernanda entendeu que, antes de receber ou delegar tarefas, precisava conhecer a sua equipe para passar segurança nesse momento do país. “Eu me apresentei, disse que já tinha experiência em gestão remota e que sabia dos desafios e das distrações que o home office traz”, afirma, citando que orientou uma funcionária que tem filho bebê a fazer os intervalos que achasse necessário.
Substituir a cultura de interação no escritório e a própria relação interpessoal criada para fazer o trabalho ocorrer é um dos desafios do onboarding remoto, avalia Carlos Eduardo Altona, sócio-diretor da Exec. “O papo que ocorre no cafezinho é realmente importante no início do trabalho em uma nova empresa”, diz um engenheiro que assumiu na semana passada, remotamente, uma vaga de coordenação em uma grande varejista on-line.
A Pfizer espera mitigar isso integrando os novos funcionários a uma cultura de home office já pré-estabelecida antes da crise, que promove happy hours no fim do dia e estimula a conversa sobre assuntos pessoais nas reuniões virtuais. “É claro que o contato olho no olho é melhor, mas temos estimulado, ainda mais nesse momento, as conexões das pessoas”, diz Sheila, do RH.
Na startup de recrutamento e seleção, Kenoby, a estratégia de onboarding inclui a nomeação de um funcionário, com mais tempo de casa, como “padrinho” dos recém-contratados. “É uma forma de substituirmos o acolhimento presencial”, diz Allini Germano, analista de RH. Na semana passada, a empresa de 115 funcionários que está de home office há 20 dias, recebeu sete profissionais. Entre eles, está o arquiteto de soluções Paul Schwandt. “É claro que é um pouco estranho chegar de forma remota, mas se a liderança está próxima e há ferramentas on-line boas, fica mais fácil de lidar com a situação”, diz.
Um dos maiores benefícios do onboarding on-line, segundo Fernando Mantovani, diretor da Robert Half, é o possível o ganho de agilidade e dinamismo na admissão. A consultoria Zup, que implementou-o no ano passado, diz que a estrutura para receber pessoas on-line ajudou a alta liderança a continuar presente no momento de contratação acelerada de profissionais. “Eu gosto de conversar com todos que chegam e seria impossível estar em nossas seis unidades em toda contratação”, afirma Gustavo Debs, fundador da Zup.
Na curitibana Olist, a primeira integração 100% remota, realizada para nove pessoas no fim de março, pôde contar com a participação do CEO, Tiago Dalvi. “Ele falou dos desafios da empresa, mas também daquele que existe para treinar pessoas de forma remota”, diz Daine Aliotto, diretora de RH. Não é para toda vaga, empresa ou setor que o onboarding pode ser adaptado. Grande parte das empresas entrevistadas suspendeu, por exemplo, a contratação de estagiários e jovens aprendizes que exigem um “acompanhamento mais presencial”.
A Siemens Digital suspendeu por ora suas contratações e a American Tower desacelerou o ritmo das contratações. As empresas que estão contratando apoiam-se na MP 927, de 22 de março de 2020, que dispensa a obrigatoriedade do exame admissional e flexibiliza as regras do teletrabalho. (Colaborou Stela Campos).