Coronavírus põe em dúvida retomada do crédito a empresas
Fonte: Valor Econômico (09 de março de 2020)
As incertezas em torno do coronavírus ameaçam atrapalhar a recuperação do crédito, especialmente para empresas. Incertezas costumam ser inimigas da demanda por recursos, em particular daqueles destinados a investimentos – e são essas as linhas que mais devem se retrair caso a epidemia leve a uma desaceleração da atividade, afirmam executivos de bancos e economistas ouvidos pelo Valor.

Não há impacto visível por enquanto, mas, se as projeções de PIB mais fraco se confirmarem, o crédito sofre por tabela. Nos últimos dias, vários economistas reduziram as estimativas de crescimento do país ante uma provável desaceleração global – especialmente depois do corte surpresa nas taxas de juros americanas feito pelo Federal Reserve. Além disso, o crescimento da economia em 2019 ficou em 1,1%, o menor em três anos.
“O impacto deve ser mais profundo e mais prolongado do que se imaginava”, afirma Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs. O banco cortou de 2,2% para 1,5% a previsão de alta do PIB neste ano.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, estimou em até 0,5 ponto percentual o efeito negativo que o coronavírus poderá ter sobre o PIB de 2020. Se a atividade desacelerar, “certamente” haverá impacto na demanda por crédito, diz um executivo de um grande banco. A extensão, porém, é difícil de calcular.
As linhas voltadas a investimento – que começaram a ensaiar uma recuperação no fim de 2019 – serão as primeiras a sentir uma eventual retração na demanda, afirma fonte da área de crédito de um banco. Na dúvida sobre o alcance da doença, a tendência é que os empresários segurem um pouco mais seus planos, até porque ainda há capacidade ociosa. “É uma volta das incertezas”, diz.
Fonte próxima a outra instituição financeira diz que o coronavírus tende não apenas a tornar os empresários mais cautelosos, como também frear o ímpeto de uma retomada mais adiante. “São muitos anos de expectativas frustradas. Quando eles voltarem [a investir], vão voltar mais devagar.”
No quarto trimestre de 2019, a formação bruta de capital fixo amargou queda de 3,3%, após dois trimestres de alta. Mesmo assim, as grandes empresas estavam voltando a se financiar, de olho em 2020. Isso se via sobretudo no mercado de capitais, mas também começava a aparecer no crédito bancário.
No crédito a pessoa física, o impacto do vírus é, hoje, uma possibilidade mais remota. O segmento mostra crescimento consistente há dois anos, impulsionado por juros menores e pela competição. “Se o desemprego aumentar, aí pode piorar, principalmente no financiamento imobiliário e de veículos”, diz um executivo de banco.
Para Ramos, do Goldman Sachs, o novo cenário de incertezas também poderá fazer as instituições financeiras colocarem o pé no freio. “Os bancos tendem a ficar mais defensivos e precificar [o crédito] de uma forma diferente.”
Muito vai depender de quanto vai durar a instabilidade. “Se ficar restrita ao primeiro trimestre, a economia volta e os bancos podem manter suas expectativas”, observa um economista que pediu para não ser identificado.
O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, afirmou que o coronavírus é “seriíssimo” e atuará como um choque de oferta. Porém, disse esperar que o problema seja contornado em três a quatro meses. “Depois, a vida continua normalmente”, afirmou na sexta-feira, sem fazer menção ao crédito.
A equipe de análise econômica do Santander espera que o saldo de crédito no país cresça 7,2% neste ano, ante 6,5% em 2019. “Mas o risco de esse cenário não se concretizar está em uma recuperação tanto no Brasil quanto do mundo ainda mais lenta, principalmente devido ao coronavírus”, afirma Laiz Carvalho, economista do banco.
Economistas ouvidos pelo Valor projetam que a carteira de pessoa jurídica com recursos livres cresça de 9,2% a 12% neste ano, considerando estimativas de Santander, Tendências Consultoria e Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). Em 2019, o avanço foi de 11,1%. Os cálculos são de antes da piora no cenário.
Companhias de menor porte são as que mais devem contribuir para a alta. “Há um incentivo da agenda do Banco Central e o empreendedorismo aumentou na crise”, diz Nicola Tingas, consultor econômico da Acrefi.
Já as grandes empresas têm recorrido com mais frequência ao mercado de capitais, o que limita a expansão do crédito bancário, diz Isabela Tavares, economista da Tendências. A consultoria projeta alta de 3,2% na carteira de pessoa jurídica neste ano, após recuo de 0,1% em 2019.