Produção de soja avança no interior de São Paulo
Fonte: Valor Econômico (28 de fevereiro de 2020)

O produtor Sidney Fujivara, que produz soja em Capão Bonito em sociedade com o irmão Sérgio: rentabilidade da cultura motivou troca do feijão pela oleaginosa — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Não eram nem 9 horas da manhã da quinta-feira da semana passada e a temperatura em Capão Bonito, no sudoeste de São Paulo, já superava 33º C. A chuva dera trégua e havia esperança de que tivesse prosseguimento a colheita de soja na fazenda Estância Célia, uma das muitas da região onde o plantio do grão tem crescido exponencialmente nos últimos anos.
Mas, como choveu muito no dia anterior, as máquinas ficaram paradas. O problema é que o produtor tinha pressa. Se a soja não saísse das lavouras, como aconteceu nesta semana, não daria para semear o milho na janela climática ideal, já que qualquer atraso deixaria as plantações do cereal vulneráveis aos riscos de geada entre maio e junho.

Até o início do ano 2000, Capão Bonito era conhecida como a capital nacional do feijão. Os preços da leguminosa na cidade praticamente definiam os valores nacionais. Na divisão da área agricultável do município, no máximo sobrava uma parte para milho de verão. Mas um ataque de mosaico dourado (doença virótica transmitida pela mosca branca) dizimou as lavouras de feijão. Ao mesmo tempo, os produtores locais viam crescer a demanda por soja e perceberam que a rentabilidade da oleaginosa era maior que a de outras culturas. Foi o gatilho para a região virar um “mini Mato Grosso”.
Na safra 2019/20, a área de soja deverá somar 100 mil hectares em Capão Bonito, ou cerca de 60% do território do município. No Estado de São Paulo, a área deve chegar a 1,06 milhão de hectares com soja, 7,3% mais que no ciclo passado e um aumento de quase 30% em relação à temporada 2015/16, segundo dados do Instituto de Economia Agropecuária (IEA) da secretaria estadual da Agricultura. “A cada ano vemos crescer a o cultivo de soja. Como não há expansão de terras no Estado, temos certeza que se trata de substituição de culturas”, afirma Marisa Zeferino, pesquisadora de grãos do IEA.
Para se ter ideia, nos mesmos cinco anos, o cultivo de milho de verão caiu 14% e a estimativa para 2019/20 é de que sejam cultivados “apenas” 374,4 mil hectares com a cultura. No caso do feijão, os números disponíveis pelo IEA não refletem perda de terreno no Estado porque houve uma recuperação nas últimas quatro safras, as únicas com números disponíveis. “Mas nada se compara ao que ocorria há uma década”, diz a pesquisadora. A leguminosa ocupará 59,4 mil hectares em 2019/20, conforme o IEA.
Sidney Fujivara, sócio da fazenda Estância Célia e da empresa SF Agronegócio em parceria com o irmão Sérgio, conta sua história para ilustrar o que aconteceu na região. Seus avós, imigrantes japoneses, chegaram à Capão Bonito na década de 1950, depois de terem trabalhado em lavouras de café de terceiros, e iniciaram o plantio de batata e cebola. Seu pai, já formado em engenharia agronômica, em meados dos anos 1970, já mais profissionalizado, manteve a batata mas optou por investir em cereais como feijão e milho. Até que o próprio Sidney, hoje com 51 anos, se formou agrônomo e conheceu o mercado de soja.
“O fato é que a soja tem um mercado formal que nos permite planejar a safra e calcular os custos e os ganhos. Isso não acontece em nenhum outro mercado agrícola”, conta Sidney, que chegou a ser contratado por várias empresas e produtores como consultor na área de batatas.
Sidney começou a plantar soja na safra 2002/02, em 250 hectares, e hoje semeia 1,7 mil hectares na fazenda, além de trabalhar com o grão em áreas arrendadas que prefere não especificar. “Gostaria de aumentar a área de cultivo com soja, mas não encontro terra disponível aqui na região nem para comprar nem para arrendar”.
Já o feijão tem preços muito voláteis e é quase impossível travar com eficiência preços levando em consideração as despesas. Além disso, os custos de produção são maiores. Na safra atual, Sidney Fujivara afirma que o plantio de soja custará entre R$ 3,5 mil e R$ 3,8 mil por hectare na região, enquanto o do feijão sairá por cerca de R$ 5,3 mil.
Apesar disso, para manter a rotação e garantir a qualidade da terra, o produtor plantará 190 hectares com a leguminosa. Milho, agora, só no inverno – e se São Pedro ajudar. “Temos pressa. Semear milho em março aumenta muito o risco de geadas e diminui o potencial produtivo das lavouras em função da baixa luminosidade”. Quando a janela climática do milho se fecha, a saída é plantar apenas trigo no inverno.
A profissionalização do mercado de soja, segundo Sidney, garante uma rentabilidade entre 30% e 40%, a depender da produtividade da lavoura, muito acima do resultado do feijão, que ele prefere não detalhar.
Ele já vendeu 50% do volume que espera colher nesta safra ao preço médio de R$ 79, acima dos R$ 76 praticados atualmente na região e patamar considerado atraente tendo em vista o viés de baixa das cotações diante da expectativa de uma farta produção global puxada pelo Brasil.
A produtividade de sua fazenda e de outras do sudoeste paulista é uma das maiores do país – chega a entre 75 sacas a 78 sacas de 60 quilos por hectare. “Normalmente, temos uma combinação perfeita de clima, umidade e temperaturas amenas e, por isso, uma das maiores produtividades do Brasil. Além disso, os produtores de São Paulo são altamente tecnificados, até porque não há mais áreas para expansão”, afirma.
O cultivo da batata, que fez Sidney Fujivara um consultor famoso, chegou ao fim em 2014/15. “É uma cultura com grande exigência de mão-de-obra e custo alto, embora rentável. Mas existe um mercado informal, e você nunca sabe quando e como vai receber. Parei de plantar batata para ter qualidade de vida”, diz. E sobrou mais espaço para a soja.