Litígio entre sócias da Eldorado está perto do fim

Fonte: Valor Econômico (14 de julho de 2020)

Disputa de R$ 15 bilhões arrasta-se há quase dois anos; J&F e PE, de dois clãs familiares, acusam-se de não cumprir contrato — Foto: Anna Carolina Negri/Valor


 
A pandemia de covid-19 não atrasou os trabalhos da arbitragem que definirá o futuro da Eldorado Brasil. O Valor apurou que as sócias na produtora de celulose, J&F Investimentos e Paper Excellence (PE), concluíram a fase de argumentação e o processo depende só da decisão do mérito, que está nas mãos dos árbitros. O resultado deve ser conhecido em setembro, data prevista originalmente, pondo fim à disputa de R$ 15 bilhões que se arrasta há quase dois anos.
 
O encerramento do litígio representará o fim de amarras para a própria companhia. Antes do início do processo de venda, a Eldorado já havia iniciado estudos para colocar uma nova linha de produção em Três Lagoas (MS), com capacidade superior a 2 milhões de toneladas anuais. Hoje, a fábrica está apta a fazer 1,8 milhão de toneladas. Com a assinatura do contrato entre a J&F e a PE, em setembro de 2017, os planos foram interrompidos, por mais tempo do que se previa devido à evolução para o conflito judicial.
 
Também grandes operações financeiras, como a emissão de um bônus de US$ 500 milhões, foram paralisadas pela disputa. No início do ano passado, a Eldorado chegou a colocar a oferta no mercado, mas questionamentos da PE quanto às informações financeiras prestadas no prospecto levaram à interrupção do processo. Os recursos seriam usados para quitar dívidas, entre as quais uma debênture de cerca de R$ 1 bilhão detida pelo Fundo de Investimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS), que acabou paga com dinheiro levantado em operações bilaterais.
 
A dívida de curto prazo ainda pressiona a empresa e levou a Moody’s a cortar sua nota de crédito para B1, em fevereiro. Segundo nota explicativa no balanço, a Eldorado tem R$ 1,8 bilhão em dívidas de “trade finance” com vencimento em agosto, que tradicionalmente são roladas, e outros cerca de R$ 2 bilhões vencem em 2021, dos quais R$ 1,86 bilhão referente à primeira emissão no mercado internacional, em 2016.
 
“A disputa entre os acionistas da empresa também permanece uma restrição para a classificação de risco, pois leva a atrasos nas decisões estratégicas da Eldorado até que o processo de arbitragem esteja concluído”, apontou a Moody’s.
 
Nos últimos meses, J&F e PE evitaram o enfrentamento público, mas a temperatura nos bastidores manteve-se elevada. Segundo fontes a par do assunto, as assembleias de acionistas e reuniões do conselho de administração seguem marcadas pelo enfrentamento. O último encontro do colegiado, em 29 de junho, não foi exceção. Os novos conselheiros indicados pela PE – Mauro Guizeline e Raul Rosenthal, ao lado de João Elek, que permaneceu – votaram contra algumas matérias, entre as quais as informações financeiras trimestrais. Antes, a PE havia tentado impedir a recondução da direção da Eldorado, mas sem sucesso devido a sua posição minoritária.
 
A PE, em outras ocasiões, já disse que seu objetivo era fiscalizar a governança e a gestão da empresa.
 
No mercado de celulose, o momento é difícil. Os preços na China estão há meses abaixo do custo de produção marginal, estimado em US$ 500 a US$ 520 a tonelada – a Eldorado é menos afetada já que está entre os menores custos do mundo. Não há consenso quanto a uma possível recuperação no segundo semestre. Embora os grandes produtores indiquem que a demanda global segue firme, a forte queda no consumo de papéis de imprimir e escrever, agravada pela pandemia de covid-19, tem contribuído para manter as cotações da matéria-prima sob pressão.
 
O último balanço trimestral mostra que, assim como outras empresas endividadas em dólar, a Eldorado viu as despesas financeiras saltarem com a desvalorização cambial e o resultado operacional encolher. Pesaram os baixos preços da fibra. Um fato adicional foi a parada geral de duas semanas na fábrica de Três Lagoas, que tem de ser feita obrigatoriamente a cada 15 meses. Isso contribuiu para a piora do desempenho, pois a produção foi menor no período.
 
No trimestre, a empresa teve receita líquida de R$ 859,5 milhões, ante 1,18 bilhão de janeiro a março de 2019, com despesa financeira líquida de R$ 1,6 bilhão, comparável a R$ 332,9 milhões no mesmo trimestre do ano passado. Assim, reportou prejuízo líquido de R$ 865 milhões, comparável a lucro de R$ 247 milhões.
 
A PE não enfrenta apenas o problema com os Batista. Produtora de celulose de fibra longa e papel no Canadá e na França, recentemente entrou com um pedido de recuperação judicial da Northern Pulp, no Canadá. Há dois meses, informou que iria reduzir a produção de papel nas unidades de Powell River e Crofton, diante das condições de mercado e do impacto da covid-19. No fim de junho, adotou medida semelhante na unidade de Mackenzie. Por isso, sua capacidade de produção de papel e celulose foi impactada entre 30% e 40%.
 
Caso vença a arbitragem, a PE eleva a posição acionária de 49,4% para 100%, assumindo a parte dos Batista. Fica livre para tocar o projeto de expansão como já indicou que faria. Se perder, ficará como sócia minoritária relevante, mas sem os poderes garantidos pelo contrato de compra da Eldorado.
 
A PE alega que a J&F agiu para bloquear a transação, diante da valorização do ativo nos meses seguintes à assinatura do contrato, com o intuito de receber R$ 6 bilhões a mais. A holding dos Batista nega a acusação – que gerou uma ação por danos morais cujo primeiro round foi vencido pelo presidente da PE no Brasil, Claudio Cotrim- e, diz que cumpriu a sua parte no contrato. A J&F recorreu da decisão. Procuradas, PE, J&F e Eldorado não comentaram o assunto.