Clima prejudica produção gaúcha de arroz

Fonte: Valor Econômico (24 de janeiro de 2019)

Em lavoura alagada de arroz em Uruguaiana, só os patos se divertem: quebra de safra chegará a quase 1 milhão de toneladas


Prepare-se: o arroz, indispensável no prato dos brasileiros, vai ficar mais caro a partir de fevereiro. A culpa é do El Niño, fenômeno meteorológico que gera aumento de chuvas no Sul do país e que, mesmo não sendo “típico” em 2019, deverá motivar uma quebra de 15% a 20% na safra no Rio Grande do Sul, responsável por 70% da produção nacional.
 
Em média, os preços pagos aos agricultores até agora subiram pouco entre dezembro e janeiro, cerca de 2%, mas em alguns municípios produtores importantes, como Uruguaiana, a alta já foi maior, de 8%. A expectativa é que esse movimento comece a chegar no varejo nas próximas semanas.
 
Além do excesso de chuvas nas últimas semanas, que prejudicou a floração dos arrozais no oeste do Rio Grande do Sul e encharcou boa parte das lavouras em outras regiões, o céu encoberto não permite o crescimento das plantas.
 
De acordo com levantamento da Emater/RS-Ascar, 50,3 mil hectares estão alagados. No total, a área plantada do Estado alcança cerca de 1 milhão de hectares – 518 mil no oeste gaúcho. Conforme o órgão, os prejuízos nas lavouras da cultura até agora chegam a R$ 342 milhões.
 
Nesse cenário, a produção do Rio Grande do Sul deverá cair para 7,3 milhões de toneladas, ante uma perspectiva inicial de 8,2 milhões. Na temporada passada, foram colhidas 8 milhões de toneladas, de acordo com a Federação das Associações dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz). O resultado final deverá ser conhecido apenas entre o fim de fevereiro e início de março, quando acaba a colheita nas principais cidades produtoras.
 
Além das intempéries que afetam a colheita, os estoques de passagem desta safra, calculados em 383,1 mil toneladas, são um dos menores da história, segundo a Conab. No ciclo 2017/18, eram 675,8 mil toneladas, e em 2016/17, 711,6 mil. Há uma década, os estoques variavam de 1,5 milhão a 2 milhões de toneladas.
 
A indústria tem tentado se proteger da futura escassez de oferta acelerando as compras em um período normalmente marcado pelo baixo volume de negócios. “Tivemos uma procura atípica em dezembro e neste mês. Tínhamos 400 mil sacas em estoque e agora temos 200 mil. Se continuar assim, não teremos nada em fevereiro”, afirma Milton Cesar Lucena Saldanha, gerente da Cooperativa Agrícola de Uruguaiana.
 
O preço médio da saca para os grãos de melhor qualidade na cidade passou de R$ 36, em dezembro, para R$ 39 neste mês de janeiro. O indicador Cepea/Esalq, porém, recuou – 1,4% desde o começo de dezembro, para R$ 40,12.
 
“Compramos normalmente cerca de 5 mil toneladas de arroz por semana. Tínhamos a intenção de elevar as negociações neste momento, mas os produtores que têm estoque estão segurando o produto e só estamos conseguindo comprar 80% disso”, conta Lázaro Moreto, CEO da Broto Legal. O preço pago pela empresa a seus fornecedores subiu 6,5% nos últimos 15 dias, para R$ 41.
 
Apesar dessa valorização dos preços, produtores e até a indústria afirmam que a preço da saca continua abaixo dos custos de produção. De acordo com o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), nesta safra o custo médio chega a R$ 48,68 por saca.
 
“Foi um azar para o produtor, mas quando ele comprou os insumos, o dólar estava a R$ 4, tudo ficou muito caro. Com essa quebra de safra, piorou a situação”, afirma Moreto, que realça que o alta de preços poderá servir para rentabilizar o segmento como um todo e não desestimular o plantio nas próximas temporadas.
 
Paulo Hofer, diretor financeiro da RiceTec, empresa que vende sementes híbridas de arroz, contudo, está mais pessimista. “Quem puder substituirá o arroz por soja, mas em terrenos que não é possível a troca, como no oeste do Rio Grande do Sul, haverá casos de abandono total de área para pastagem”, afirma.
 
“Há dois anos, a saca custava R$ 50”, lembra também André Ziglia, diretor de suprimentos da Camil. Ele afirma, porém, que a Camil não está entre as indústrias que intensificaram as compras neste mês. “Seguimos o cronograma porque normalmente, no arroz, é possível repassar os preços ao varejo e ao consumidor.”
 
Por causa disso, garante o executivo, a Camil terá uma rentabilidade melhor com o produto em 2019. A tendência já havia sido sinalizada pelo CEO Luciano Quartiero na mais recente divulgação de resultados da empresa.
 
De acordo com os representantes das duas companhias, o consumidor leva de 40 dias a um mês para sentir o aumento dos valores no campo nas gôndolas dos supermercados. O arroz tem peso de 24,5566 no sub índice de alimentos do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), e de 0,5995 do indicador total medido pelo IBGE.
 
Apesar da previsão de oferta menor e aumento de preços, Ziglia garante que não haverá desabastecimento, porque o Brasil sempre pode importar arroz de países vizinhos. No Uruguai e em parte da Argentina, o El Niño também causou chuvas em excesso, mas esses países têm arroz para exportar. No Paraguai, não haverá quebra de safra.
 
“A Camil não compra arroz do Paraguai, mas muitas indústrias brasileiras o fazem”, diz Ziglia. O arroz importado pela empresa normalmente é destinado a suas marcas de entrada e representa entre 5% e 10% do total ofertado.
 
Soja também sofre
As chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul também causaram provocaram prejuízos aos produtores de soja. Enquanto em outras regiões do país o problema é a seca, na área de 1 milhão de hectares de soja na região de Campanha e na Fronteira Oeste o alagamento já comprometeu a produtividade. Segundo a Emater do Estado, 275 mil hectares em 52 municípios foram completamente comprometidos, o que representa uma perda estimada de R$ 435 milhões. Em outras regiões, a baixa luminosidade e o solo úmido têm elevado o nível de pragas e doenças fúngicas. “É cedo para uma avaliação mais consistente, mas 1.950 produtores e mais de 339 mil tonelada de soja estão perdidas”, diz a Emater.