Diversidade e inclusão impulsionam mudanças na comunicação corporativa
Fonte: Valor Econômico (16 de dezembro de 2024)

À medida que as empresas em geral aumentam os investimentos na diversidade e inclusão de seus quadros de funcionários — e, no Brasil, elas investem cada vez mais, pelos bons resultados já comprovados dessa medida —, a comunicação corporativa ganha importância na mesma proporção. “Criamos grupos de afinidades para ouvir os desafios e expectativas de mulheres e pessoas pretas que trabalham conosco, e estamos atentos também para melhorar o acolhimento às pessoas com deficiência e às da comunidade LGBTQIA+. Tudo isso é feito com uma comunicação interna cada vez mais cuidadosa”, conta Isabela Costa, diretora de comunicação corporativa da divisão brasileira do Iveco Group.
Com base em um censo de diversidade realizado em 2023, a Iveco definiu metas para promover a equidade de gênero, o acolhimento a pessoas com deficiência e o uso de linguagem inclusiva em todas as comunicações. Entre as ações recentemente adotadas estão a incorporação da linguagem de sinais nas transmissões internas de vídeo e a exploração guiada de pessoas com deficiência por todas as áreas da companhia, para verificar pontos que podem ter o acesso facilitado.
Como se trata de uma companhia do segmento automotivo, dedicada à fabricação de veículos comerciais leves e pesados, a Iveco tem muito mais homens do que mulheres entre seus três mil colaboradores no Brasil. “Nossa meta é chegar à equidade salarial de gênero e ampliar a presença feminina a 23% do total até 2026”, informa Costa.
Já no caso de afrodescendentes, o desafio não é aumentar o percentual de trabalhadores — pois eles já representam 60% do quadro funcional —, mas tornar o relacionamento interpessoal dentro da empresa cada vez mais respeitoso, evitando expressões que possam causar desconforto.
Para isso, a multinacional italiana segue um dicionário de linguagem inclusiva desenvolvido em 17 idiomas. Na versão adaptada para a realidade brasileira, a publicação ensina a não mencionar nacionalidade ou etnia se essas qualificações não forem relevantes e propõe, por exemplo, substituir “homem” por “ser humano, “pobres” por “pessoas em situação de vulnerabilidade social” e “pessoa deficiente” por “pessoa com deficiência”. A linguagem neutra não é adotada nos comunicados, mas há a preocupação de evitar expressões definidoras de gênero, como “obrigado por…” (dando preferência a “agradecemos por…”) ou “os líderes” (optando por “as lideranças”).
Na indústria farmacêutica Roche, a preocupação com diversidade e inclusão, até por ser mais antiga — é um tema que começou a circular 20 anos atrás na multinacional suíça, segundo Regina Moura, diretora de comunicação corporativa no Brasil —, já levou à criação de seis grupos de afinidade que debatem permanentemente propostas para que a empresa um dia chegue a refletir, com exatidão, a representatividade da sociedade brasileira. “A equidade de gênero já conseguimos e neste momento somos até maioria nos postos de direção, ocupando sete das dez cadeiras, inclusive a de presidente”, nota Moura.
Além dos grupos de afinidade mais tradicionais, dedicados às mulheres (o Join, de Journey, Opportunity & Inclusive Network) e às pessoas pretas (o Coletivo AFA), a Roche Brasil mantém outras quatro frentes de discussão. São elas a Gerações (que estimula a interação entre quatro perfis geracionais, dos nascidos na primeira década do século XXI aos funcionários 60+, para combater o etarismo), a Person (que inclui pessoas com deficiência), a Open (da comunidade LGBTQIA+) e a ManAtWork (funcionários homens que se atualizam para evitar a masculinidade tóxica).
Esses grupos começaram a ser criados em 2017 e foram se multiplicando não só por iniciativa da empresa, mas também dos próprios funcionários, como foi o caso do ManAtWork. “Quando houver espaço para novos grupos, eles serão formados naturalmente”, diz a diretora de comunicação da Roche.
A comunicação corporativa da farmacêutica, que reúne sete profissionais, também atua nas campanhas internas de esclarecimento via newsletters, vídeos e webinars para o reforço da cultura organizacional, bem como no compartilhamento de histórias inspiradoras e no treinamento sobre diversidade e inclusão para todos os níveis da empresa.
“Nessas campanhas, procuramos garantir a representatividade de todos os grupos de afinidade e transmitir os vídeos com legendas e linguagem de sinais para que todos possam acompanhar sem restrições. Temos o mesmo cuidado com o site roche.com.br, que conta com um menu de acessibilidade que permite ao usuário escolher a melhor forma de navegação, optando por fontes, áudio e modos de visualização”, afirma Moura. “Outro detalhe interessante é que nossos eventos internos são registrados por uma equipe de fotógrafos portadores de síndrome de Down. Eles não são nossos funcionários, mas prestam um ótimo serviço e ficamos felizes de poder apoiá-los”, comenta.
Na filial brasileira da ADM, uma das líderes globais de nutrição animal, a comunicação corporativa apoia principalmente os três grupos de afinidade criados pela empresa, focados, como na maioria dos casos, no empoderamento feminino, na equidade racial e na convivência respeitosa com a comunidade LGBTQIA+. “A comunicação interna da ADM reforça a nossa preocupação com a diversidade por meio de newsletters, reuniões e plataformas digitais que facilitam o compartilhamento de informações. Também procuramos transmitir esses valores nos canais específicos de diálogo com nossos clientes, parceiros, investidores e a comunidade em geral”, explica André Degasperi, diretor de comunicação corporativa da companhia para a América Latina.
Os núcleos dedicados às mulheres e aos afrodescentes, que existem há mais tempo, desdobram-se em várias iniciativas. No grupo feminino, o programa Entre Elas promove o desenvolvimento profissional com mentoria e cursos de idiomas, além de abordar temas como carreira, saúde, educação, autoconhecimento, inteligência emocional, finanças, entre outros. “Uma iniciativa desse grupo resultou na criação de lactários em nove unidades da empresa”, informa Degasperi.
A ADM também incentiva as funcionárias a realizar ações sociais (como a distribuição de cestas básicas em cidades onde a empresa atua) e a interagir com produtoras rurais (12 delas participaram recentemente do Congresso Nacional de Mulheres do Agro). Lançado em 2023, o programa Um Salto no Agro serve como uma vitrine para compartilhar histórias inspiradoras e iniciativas inovadoras das mulheres do agronegócio.
Já o grupo de afinidade Afrodescendente da ADM estimula o engajamento de estudantes negros em oportunidades no mercado corporativo e promove, em parceria com a consultoria Ubuntu, um curso de capacitação das lideranças da empresa para a promoção da equidade racial no ambiente de trabalho. Por fim, o grupo voltado à comunidade LGBTQIA+, criado em 2022, busca garantir um ambiente de trabalho livre de discriminação de orientação sexual.