Itália vai adiar pagamento de dívidas para pessoas e empresas
Fonte: Valor Econômico (11 de março de 2020)
A Itália pretende oferecer uma moratória em grande escala dos pagamentos de dívidas, incluindo hipotecas, para ajudar famílias e empresas a enfrentar a epidemia de coronavírus. O Parlamento italiano deverá votar hoje o pacote de medidas.
O anúncio, feito ontem pela vice-ministra da Economia italiana, Laura Castelli, segue-se à decisão tomada na segunda-feira pelo premiê, Giuseppe Conte, de colocar o país inteiro sob quarentena. Economistas acreditam que a paralisação levará a uma grande desaceleração econômica.
“Pressionamos o sistema bancário para ajudar o máximo possível e obtivemos total colaboração”, afirmou Castelli.
Todos os pagamentos de financiamento imobiliário serão suspensos, assim como os pagamentos de pequenos empréstimos e linhas de crédito rotativo que as companhias usam para ter liquidez suficiente, acrescentou.
O programa reforça a gravidade do desafio econômico que a Itália enfrenta. Na semana passada, o governo do país destinou € 7,5 bilhões (US$ 8,6 bilhões) para ajudar a economia e o setor de saúde, que enfrentam dificuldades, mas esse número poderá aumentar para mais de € 10 bilhões, segundo autoridades.
Aliviar consumidores e empresas do pagamento de dívidas poderá amparar a economia, mas complica a maneira como o frágil sistema bancário da Itália lida com a perda de receita.
Os bancos italianos há muito são vistos como o elo fraco do sistema financeiro europeu. Sobrecarregados de empréstimos pobres e diante de uma economia anêmica, vários já faliram ou se fundiram na esteira da crise da dívida soberana que se abateu sobre a Europa na década passada.
O governo não deu detalhes sobre o plano. Mas segundo uma ideia que circulou entre as autoridades, o governo garantiria os empréstimos inadimplentes para que os bancos não precisem provisionar capital – e reconhecer perdas – para cobrir as dívidas podres. Pelo menos é o que disse ontem Giovanni Sabatini, presidente da Associação Italiana de Bancos.
Os bancos perderiam receitas com as prestações não pagas, mas com taxas de juros tão baixas e o risco de as empresas ficarem insolventes sem a ajuda, essa solução no momento é a melhor opção, segundo Sabatini. Não está claro ainda quantos bilhões de euros em empréstimos serão afetados pela medida.
“A verdade é que todos precisam pagar o preço. Estamos tentando minimizá-lo, não só para as empresas como também para os bancos”, acrescentou Sabatini.
Roma poderá recorrer a um fundo público para garantir o pagamento de alguns empréstimos contraídos por pequenas e médias empresas afetadas pelo vírus, segundo disse uma autoridade do governo.
Nos últimos dias, vários bancos italianos disseram que estão permitindo aos clientes afetados pela epidemia, que adiem os pagamentos de empréstimos.
O UniCredit, maior banco italiano em ativos, disse que oferecerá uma moratória de 12 meses nos pagamentos de financiamento imobiliário para clientes de varejo e empresas nos municípios atingidos pelo vírus.
Além da perda de receitas, sob as regras europeias os bancos precisam separar capital para cobrir potenciais perdas quando um cliente não paga prestações há mais de 90 dias, ou quando está claro que o tomador dará calote.
Nos últimos anos, os bancos italianos reduziram significativamente seu imenso estoque de empréstimos podres. Eles hoje respondem por 7% dos empréstimos totais, ainda alto pelos padrões internacionais, mas abaixo do pico registrado em 2015, de 17%.
Os bancos também progrediram no reforço de seus colchões de capital, proteção em períodos de dificuldades. Mas os bancos italianos estão tendo dificuldades para ganhar dinheiro e os investidores poderão ter um apetite limitado para injetar mais dinheiro para cobrir um novo aumento nos empréstimos inadimplentes.