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No Brasil, impacto do acordo entre China e EUA deve ser limitado


Fonte: Valor Econômico (16 de janeiro de 2020 )
À frente de Ivanka Trump, secretário de Agricultura dos EUA, Sonny Perdue, participa da cerimônia de assinatura do acordo — Foto: Steve Helber/AP

O acordo de “primeira fase” firmado ontem entre Washington e Pequim foi recebido com ceticismo pelos investidores, mas entusiasmo por produtores americanos, que esperam retomar o mercado chinês perdido para os produtos agrícolas do Brasil. As perdas para o agronegócio brasileiro, no entanto, podem ficar limitadas à redução do valor dos prêmios, já que o pacto entre as duas potências ainda guarda muitas lacunas e os excedentes exportáveis brasileiros podem ser direcionados a outros países, conforme analistas.

 

Os prêmios (valor adicional às cotações internacionais pago nos portos) sobre a soja – carro-chefe do agronegócio brasileiro – devem voltar aos patamares habituais, entre US$ 0,30 e US$ 0,40 por bushel no primeiro semestre e US$ 0,60 a US$ 0,80 no segundo, projetou Vitor Ikeda, analista do Rabobank. “Nos últimos dois anos, os prêmios superaram US$ 1. Em 2018 [auge da disputa entre os dois países], chegaram próximos de US$ 2”, lembrou.

 

Nas bolsas americanas, os preços das commodities mais afetadas pela guerra comercial indicaram que os investidores aguardarão mais sinais de que o acordo é mesmo para valer. Em Chicago, os contratos mais negociados de soja recuaram 1,4%, a US$ 9,2875 o bushel. Em Nova York, o preço do algodão caiu 1,5%, para 70,32 centavos de dólar a libra-peso.

 

A guerra comercial tirou US$ 5 bilhões dos EUA em exportações de soja. Em volume, foram 20 milhões de toneladas do grão exportadas a menos à China ao ano. Em tese, é o potencial que os americanos têm para recuperar mercado de forma a restaurar as condições que vigoravam antes da disputa, afirmou Guilherme Bellotti, gerente de consultoria de agronegócio do Itaú BBA.

 

Diante da relação tumultuada entre os dois países, o analista não acredita que os chineses concentrarão as importações de soja nos EUA, ampliando o volume para além dessas 20 milhões de toneladas – seria necessário um volume significativo para cumprir os termos do acordo. “Não faz sentido para a estratégia da China”, argumentou ele.

 

 

De qualquer forma, o Brasil pode reduzir as vendas à China. Para Luiz Fernando Roque, analista da consultoria Safras & Mercado, a perda pode ficar entre 10 milhões e 15 milhões de toneladas – com a guerra comercial, embarques de soja do Brasil aos chineses passaram de 54 milhões de toneladas para mais de 60 milhões de toneladas por safra. “Voltaremos a ver a soja americana competindo”.

 

No entendimento da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), porém, o país não deve perder espaço na preferência dos chineses. “A nossa soja é mais competitiva, tem logística mais barata e mais teor de proteína. É o que os chineses vão procurar”, disse Bartholomeu Braz, presidente da associação.

 

Na área agrícola, o acordo é considerado de difícil execução. Os chineses se comprometeram a comprar US$ 32 bilhões adicionais em produtos agrícolas dos EUA em dois anos, mas há muitas dúvidas sobre o cumprimento desse objetivo. As exportações precisariam dobrar em relação ao pré-guerra. Em 2017, a receita com os embarques de produtos do setor foi de US$ 19,5 bilhões, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

 

Pelos termos do acordo, a China aumentaria as compras de produtos agrícolas americanos em US$ 12,5 bilhões neste ano – o tratado toma como base o ano de 2017. No ano que vem, um novo aumento das compras agrícolas dos chineses ocorreria, agregando US$ 19,5 bilhões sobre a base pré-conflito.

 

A despeito do montante expressivo, o acordo comercial está longe de resolver a disputa entre as duas potências. As tarifas sobre os produtos chineses – pedra de toque da guerra comercial – serão mantidas até a assinatura de uma eventual segunda fase do pacto, que não tem data para acontecer, admitiu ontem o presidente americano, Donald Trump.

 

Diante desse cenário, há quem tenha visto o acordo com bons olhos. “Foi uma tremenda notícia positiva para o Brasil. O acordo não tem serventia alguma e mais parece um protocolo de intenções, usado para fazer palanque eleitoral”, afirmou Carlos Cogo, da Cogo Consultoria.

 

De acordo com ele, ao não definir volumes específicos para as compras, o acordo não deve se concretizar. “Com os produtos listados eles não chegam ao volume da meta, seria impossível”. Além da soja e do algodão, carnes, cereais, etanol e produtos de pouca relevância compõem a lista de itens que podem entrar no bolo das aquisições de Pequim. Na semana passada, quando já se cogitava o compromisso de compras agrícolas dos chineses, o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, minimizou o potencial. “Não fecha a conta, não tem produto americano para isso”, ressaltou.

 

Segundo Jack Scoville, da consultoria Price Futures Group, o compromisso da China de aumentar as compras de produtos americanos não é visto como suficiente para que os EUA retomem as vendas registradas antes da guerra comercial, quando os chineses compraram 31,7 milhões de toneladas de soja do país.

 

Também não passou desapercebida dos analistas a fala de ontem do vice-primeiro ministro da China, Liu He, sinalizando que o país asiático comprará onde obtiver melhores preços e que a demanda terá de justificar a compra. “Ele deixou uma mensagem subliminar”, resumiu César Castro Alves, do Itaú BBA. (Colaborou Luiz Henrique Mendes)


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