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Consumidor pagará mais caro pelo feijão

Fonte: Valor Econômico (28 de novembro de 2019)

O consumidor brasileiro provavelmente terá uma surpresa desagradável em, no máximo 15 dias: o feijão carioca vai começar a chegar mais caro nas gôndolas dos supermercado. E o aumento poderá ser tão alto a ponto de a leguminosa se tornar mais uma vilã da inflação no fim do ano, junto com as carnes. Isso porque os preços ao produtor subiram quase 50% em apenas um mês, para uma média de R$ 245 a saca em novembro, e estão quase 150% mais elevados que no mesmo período de 2018, segundo dados do Instituto Brasileiro de Feijão e Pulses (Ibrafe).
 

 
Para quem gosta de um bom prato de arroz com feijão, a esperança é que as indústrias não consigam repassar integralmente esse aumento de custo, como vem ocorrendo desde o ano passado devido à queda do poder aquisitivo – que, no entanto, já dá sinais de reação. O feijão carioca tem peso 0,179% no IPCA, mas é componente essencial do grupo de alimentos, que tem participação de 24,528% no índice geral, e de alimentação fora de casa, onde tem fatia de 8,8217%.
 
A alta no campo reflete uma oferta abaixo da esperada – embora maior – na terceira das três safras da atual temporada, por causa de problemas climáticos no interior de São Paulo e, principalmente, no Paraná. A frustração se somou a estoques particularmente baixos em virtude de estiagens que também afetaram a primeira e segunda safras. Conforme o Ibrafe, foram colhidas 662,35 mil toneladas de feijão carioca na terceira safra, 19% mais que em 2017/18, mas a alta foi insuficiente e, somadas as três safra, a produção ficou em 1,9 milhão de toneladas, para um consumo de 2,2 milhões.
 
Marcelo Lüders, presidente do Ibrafe, realça que os números da entidade e de outras associações que representam a cadeia produtiva de feijão diferem dos divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). As estimativas da estatal apontam para uma sobreoferta, com 672,3 mil toneladas de feijão carioca colhidos na terceira safra, 21% mais que em 2017/18. O comportamento dos preços, contudo, está mais para um mercado que apresenta déficit do que superávit.
 
Outro problema nesse mercado é que a safra de verão, que está sendo semeada agora e será colhida em janeiro, vem caindo ano após ano. “Milho e soja, principalmente, são mais rentáveis para o produtor”, afirma Ana Vitória Monteiro, pesquisadora do Instituto de Economia Agrícola (IEA) da Secretaria da Agricultura de São Paulo. Assim, a relação entre oferta e demanda vai demorar mais para se estabilizar e deverá acontecer somente em maio do ano que vem.
 
Conforme levantamento do Ibrafe, em todo o país os produtores deverão semear 350 mil hectares na primeira safra deste ciclo 2019/20, com estimativa de produção de 567 mil toneladas. A Conab prevê uma área de 378 mil hectares com o cores (classificação oficial do carioca) e colheita de 610 mil toneladas. “As indicações são de boa produtividade, o que deve garantir o abastecimento apesar da queda da área plantada”, diz Ana Vitória.
 
A situação também pode melhorar se os agricultores com áreas irrigadas sobretudo em Mato Grosso, Goiás, Bahia, Minas Gerais e Tocantins perceberem a oportunidade e ampliarem seus plantios, afirma o presidente do Ibrafe. “Quem tem área irrigada pode ampliar a produção a qualquer momento. E, com investimentos em armazéns climatizados, o produtor pode esperar e gerenciar a melhor hora para vender o grão”, afirma Lüders.
 
Apesar de não ter um armazém climatizado, a produtora Sueli Karling, na região de Guarapuava, no Paraná, diz que “não trabalhar sob o efeito manada já surte bons resultados”. Ela fica de olho nos preços do feijão e faz exatamente o contrário de todos os seus conhecidos e concorrentes.
 
“Quando o preço estoura, como na safra passada, quando a saca chegou a R$ 300, eu reduzo a área de plantio. Isso porque todos olham esse preço, saem correndo atrás de sementes salvas de pouca qualidade e plantam um monte. Conclusão? O preço cai”.“Eu não, quando o preço está bem baixo, saio semeando feijão e, agora, terei muito para vender”, afirma. Sueli conta que, no início de outubro, a saca de feijão estava a R$ 160 e seus colegas todos estavam preocupados com a colheita de milho e com o plantio de soja precoce.“Vi que o preço estava ruim à vista e aumentei minha área em 30% na safra de verão. Terei feijão em dezembro e janeiro, e mais ninguém perto de mim terá”. A produtora semeou 120 hectares de feijão carioca na cidade de Manoel Ribas e 220 hectares de preto em Pinhão. Ela espera vender a produção em média a R$ 230 por saca.
 
A estratégia de Sueli já rendeu ganhos espetaculares. Na safra 2015/16, quando a safra de feijão chegou a 2,5 milhões de toneladas (queda de 22%) e faltou produto no país, eleva havia aumentado a área de produção. “Produtores têm receio de arriscar e se apoiam na cultura principal. Eu não deixo de semear soja, claro, mas reservo entre um terço e um quarto da minha área ao feijão. Só perco se o clima for muito ruim”. Neste verão de 2019/20, Sueli também está plantando 320 hectares com soja.