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S&P zera empresas sem mulher no conselho; Brasil pena para chegar lá


Fonte: Infomoney (15 de agosto de 2019 )

SÃO PAULO – Recentemente, o S&P 500, índice em que as 500 maiores empresas dos EUA estão listadas, anunciou que todas as companhias possuem mulheres em seus conselhos de administração.

 

Mais especificamente, 11% das empresas que compõem o S&P 500 têm uma mulher, 36% têm duas mulheres, 33% posuem três representantes femininas, 14% têm quatro e 6% possuem cinco ou mais, segundo informações da Bloomberg.

 

Mas o processo para chegar a este resultado foi bem lento. Em 2000, cerca de 86% das empresas do índice tinham pelo menos uma mulher no conselho, de acordo com a consultoria Spencer Stuart. E só em 2019, quase 20 anos depois, os últimos 14% das empresas preencheram seus conselhos com mulheres.

 

O InfoMoney fez um levantamento visando analisar a diferença entre homens e mulheres em conselhos de administração das empresas listadas na B3 e comparar com o índice S&P 500. A composição dos conselhos das empresas brasileiras foi retirada do próprio site de cada companhia. E os resultados da realidade brasileira não vão em linha com o progresso – ainda que pequeno – americano.

 

Brasil engatinha na paridade de gênero
Das 63 empresas que compõem o índice Ibovespa, 30% delas não possuem mulheres em seu conselho de administração. Por outro lado, quase 70% das empresas contam com pelo menos uma representante feminina.

 

Pode parecer um resultado mais positivo do que o esperado, mas ao considerarmos todos os assentos disponíveis, o cenário é mais realista: dos 579 lugares das empresas da bolsa, apenas 63 assentos são ocupados por mulheres, o que representa cerca de 11% do total.

 

 

 

Apesar dos números do Brasil serem desanimadores na comparação com os EUA, vale lembrar que esse movimento americano vem em conjunto com uma forte pressão de investidores – incluindo institucionais, como a BlackRock, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, e State Street, uma holding de bancos. Cada vez mais, esses grandes nomes trabalham para que a presença de mulheres nos conselhos das empresas que investem aumente.

 

A gestora chegou a pedir explicações das empresas em que investe sobre a falta de mulheres nos conselhos de administração. Segundo a Bloomberg, no ano passado a BlackRock enviou cartas para empresas com menos de duas representantes femininas, pedindo que justificassem como isso se alinha com as estratégias de longo prazo e o que as companhias fariam para aumentar a diversidade em seus conselhos.

 

Ainda, a Califórnia definiu um tipo de sistema de cotas com mulheres para empresas com sede no estado no ano passado. Nova Jersey tem um projeto de lei parecido em tramitação. Uma onda nesse sentido vem sendo disseminada por lá.

 

“O grande problema é que o conselho de administração tem um peso gigantesco na condução estratégica e na definição de fatores importantes da empresa. Diversos estudos mostram que decisões do conselho são muito mais eficientes quando se tem grupos diversos compondo esse time, o que inclui a diversidade de gênero”, afirma Regina Madalozzo, professora associada do Insper, PhD em economia pela Universidade de Illinois e sua área de pesquisa é em economia do trabalho com foco no mercado de trabalho de mulheres.

 

No final de 2016, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), lançou uma pesquisa sobre o perfil dos conselheiros no Brasil. A amostra foi composta por 339 companhias de diversas áreas. Até então, considerando essa amostra maior, do total de assentos disponíveis apenas 7,9% das vagas de conselhos de administração eram de mulheres no Brasil.

 

Valéria Café, diretora de Vocalização e Influência do IBGC, explicou que questionados sobre estes resultados à época, os conselheiros de administração do mercado mencionaram que não havia mulheres com experiências relevantes o suficiente para assumir posições em conselhos.

 

“Além disso, quando há seleção para nova composição de conselhos, predominam as indicações e networking. Nessa perspectiva, considerando que os conselhos ainda são ambientes predominantemente masculinos, as mulheres encontram poucas portas de entrada”, afirma. Esse é o estudo mais recente do instituto sobre o assunto.

 

Regina diz que a falta de diversidade é sinal de que o conselho é formado de maneira endógena. “A busca para preencher essas vagas é feita sempre nos mesmos lugares. Existem sim mulheres capacitadas para ocupar essas posições em várias áreas, não faltam profissionais boas, mas ninguém as contata”, diz a professora.

 

Segundo Valéria, a busca pelo aumento de diversidade, antes de ser uma obrigatoriedade, “é uma medida de urgência diante do grande movimento transformacional da sociedade. Fica difícil falar de inovação, disrupção e novos modelos de negócios sem falar de diversidade”.

 

Por mais que muitas empresas reivindiquem a prioridade de nomear a melhor pessoa, independentemente do sexo, esses números ilustram que isso não está necessariamente acontecendo quando se trata do recrutamento dos membros dos conselhos.

 

“A composição de um conselho de administração deve ter em vista a diversidade de experiências, conhecimentos, comportamentos, aspectos culturais, faixa etária e de gênero. Essa diversidade faz com que o conselho seja mais inovador, questionador e efetivo. A cultura da diversidade na organização, desde o seu conselho, permite pluralidade de argumentos e mais qualidade e segurança na tomada de decisão”, diz Valéria.

 

Vale lembrar que neste ano a B3 se uniu ao Programa estruturado de Mentoria desenvolvido em 2014 pelo IBGC, International Finance Corporation (IFC) e  WomenCorporateDirectors (WCD).

 

“O objetivo é promover troca de conhecimento, experiências, networking e ampliar a visibilidade de mulheres capacitadas para atuar em conselhos de administração, consultivos ou fiscais, e comitês de empresas e entidades brasileiras”, diz a diretoria do instituto.  Os resultados deste movimento virão em um longo prazo.

 

Papel da liderança  

Um tópico importante da discussão é a liderança e seu papel na presença de mulheres no conselho de administração das empresas.

 

“O presidente do conselho tem muita importância porque ele ou ela pode optar por incluir mais mulheres tanto no conselho, quanto incentivar o movimento na empresa. Um líder que se preocupa com a paridade de gênero não escolhe uma mulher para compor o quadro de membros por justiça social, mas age para possibilitar que mais mulheres tenham a chance de ocupar a vaga”, diz Regina.

 

Ela complementa: “não é ser mais leniente na avaliação das mulheres, é avaliar seus próprios vieses e entender que se homens e mulheres são iguais, por que elas ocupam menos lugares? Se o líder é consciente e está atento, ele tem certeza que existem mulheres que possam ocupar a vaga”.

 

Para especialistas, a questão central é a necessidade de criar as mesmas oportunidades entre mulheres e homens para que elas consigam empregos e vagas nos conselhos de administração. “A fotografia é ruim no Brasil. Uma única mulher no conselho não é suficiente. É um passo, mas estamos muito atrasados”, avalia a professora.

 

Veja o resultado do estudo feito pelo InfoMoney sobre as empresas que fazem parte do Ibovespa:

 

 


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